• Júlio Cesar Azevedo

Formação do Ecossistema de Inovação do Rio de Janeiro

A inovação, desde os primórdios da sociedade, é um dos principais motores de desenvolvimento econômico e social da humanidade. No passado, uma nova revolução acontecia a cada 300 anos. Atualmente, nosso ciclo de mudança é de 10 anos, no máximo. Vivemos uma nova revolução tecnológica. Muito em breve, receberemos nossas encomendas através de drones programados com essa finalidade. Não dirigiremos mais nossos carros, pois os modelos inteligentes - sem motoristas - dominarão o mercado. No campo da saúde, a pandemia do COVID-19 demonstrou a necessidade de investimento em inovação no setor para o desenvolvimento rápido e eficaz de remédios e vacinas capazes de imunizarem toda a população global. Mas para falar de inovação, é importante voltar umas décadas atrás para entender o desenvolvimento dos pólos de tecnologia que conhecemos hoje.

O ano era 1971, quando a revista Eletronic Newsnoticiou pela primeira vez sobre o chamado Vale do Silício – uma região da Califórnia onde abriga as maiores empresas de tecnologia e muitas startups promissoras e inovadoras. O desenvolvimento do Norte da Califórnia iniciou-se na década de 50 impulsionado pelo investimento em tecnologia de ponta na Guerra Fria. Com a consolidação das grandes empresas que surgiram nas décadas seguintes (Intel, Microsoft, Apple etc.), o mercado local ficou extremamente aquecido e atraiu muitos outros investimentos. Nessa primeira fase do Vale do Silício, houve uma expansão nunca antes vista na história de tecnologias e empresas. Com tantas empresas inovadoras instaladas numa única região, a Califórnia virou o paraíso dos fundos de investimentos, especialmente os focados em venture capital, responsáveis pela alavancagem de muitas dessas companhias. Associado a esse movimento de capital de risco, houve um forte incentivo nas Universidades e incubadoras para o desenvolvimento de pesquisas. Graças à consolidação do setor no mercado mundial, muitas outras startups foram fundadas na região e deram início ao boom da internet na década de 90, como Googlee Netscape.

Apesar de o Vale do Silício ser a referência no mundo da web e da tecnologia, a região inspirou o desenvolvimento de outros pólos tecnológicos, como Israel Silicon Wadi. Com um rápido crescimento em inovação em setores tecnológicos como desenvolvimento de softwares, medicina, equipamentos de segurança e defesa, além de diversos aplicativos voltados para o consumidor como Waze, Wix, Yo!, Israel é conhecida como a “nação startup”. Assim como no Vale do Silício, a expansão da região aconteceu na década de 80 e 90, impulsionado pela presença maciça de investidores e grandes empresas.

Além dos EUA e Israel, aformação de ecossistemas de alto impacto em outros locais tem sido alvo de estudos e pesquisas, com destaque internacional também para Inglaterra e Canadá. Esses países são cases que tornam possível avaliar o crescimento econômico e social alcançados a partir do investimento na formação de áreas de inovação, em que se desenvolvem mecanismos promotores da inovação, tais como incubadoras e aceleradoras de negócios, parques tecnológicos, clusters de inovação e empreendedorismo.

Outro exemplo mais recente que merece ser citado é de Portugal. Influenciado pelos efeitos do evento Web Summit, que se tornou o maior evento de tecnologia no mundo, Portugal passou a ser considerado um hub tecnológico, foco de interesses de diversas multinacionais que desde então investiram no País. Esta situação foi fortemente impulsionada pela visibilidade que o evento trouxe e ainda traz, bem como pelos principais gestores e tomadores de decisão que participam da Web Summit. Até hoje, o país se beneficia de significativos investimentos em startups, gerando empregos e aumentando a arrecadação fiscal para autoridades locais e centrais.

No Brasil, há alguns exemplos de destaque como Recife com o projeto do Porto de Recife, Santa Rita de Sapucaí em Minas Gerais, além de diversas outras iniciativas espalhadas pelo país. No caso de Santa Rita, observou-se um crescimento da renda per capita média do município, de R$ 219, em 1999, para R$ 315, em 2000 e R$738,40 em 2010; e do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, de 0,654 (2000) para 0,721 (2010) após o desenvolvimento da região como um grande pólo de inovação tecnológica.[1]

Com uma academia de excelência, grande mercado consumidor, integração logística com o resto do país e mundo, o Rio de Janeiro possui um elevado potencial para constituir-se como um grande hub de inovação e ser um player relevante no mercado global de tecnologia. Para obter tal sucesso, são necessárias uma série de iniciativas de integração entre corporações, governo, empreendedores, investidores e universidades. Nessa linha, o programa de aceleração de regiões do MIT – MIT REAP[2]– , que terá o Rio de Janeiro como uma das regiões participantes da edição do programa, tem um grande potencial para ser um divisor de águas no desenvolvimento de um ecossistema de inovação na cidade. Além disso, a criação de um espaço físico destinado ao ecossistema mostra-se essencial, podendo agregar uma série de projetos periféricos. Com a proposta de ser um dos maiores hubde inovação do país, o projeto do LabGov pode vir a ser um catalistador da cultura de inovação no Rio, sendo um grande gerador de novos negócios e investimentos, possibilitando a criação de novos empregos e aumento de renda.

Com uma economia diversificada e com forte atuação na área financeira e de seguros, energia, turismo e entretenimento, o Rio de Janeiro possui uma grande vantagem competitiva para se colocar como um ator global de inovação e dar um salto tecnológico. Mudanças dessa magnitude certamente irão causar grande impacto social, econômico e ambiental em diversos setores e nas mais diferentes regiões da cidade e o resultado será sentido positivamente por toda a população.


[1]Guimarães, L. V. S.; Neves, D. P.; Plonski, G. A. Ecossistemas de Empreendedorismo Inovadores e Inspiradores. Anprotec e SEBRAE - Brasília: Sebrae, 2020.

[2]https://reap.mittechreview.com.br

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