• Marina Guimarães

Como 2 centavos revolucionaram a economia

Sufia Begum tinha 21 anos quando encontrou o economista Mohammed Yunus em Bangladesh, em tempos de fome no país. A artesã, que ganhava 2 centavos por dia, era mãe de três e vivia em extrema pobreza. Após o encontro com Begum, Yunus começou a pensar na ideia de contribuir com pequenos empréstimos. No caso, o empréstimo foi de 27 dólares e a ajudou a ser financeiramente independente.

Com a chegada da COVID-19, muitos movimentos com objetivo de ajudar o próximo ganharam força. Um dos mais importantes, principalmente nos Estados Unidos foi o “support local business”, que focava em dar mais visibilidade a pequenos comércios locais para que estes não fossem a falência após políticas de lockdown. O Brasil, que também foi duramente afetado pela pandemia, vive um drama parecido. De acordo com números oficiais do SEBRAE, os “local business”, muitas vezes também referidos como “small business” (ou pequenos negócios em português), representam 99% dos negócios no Brasil. Muitos deles, dependentes de microcrédito.

A aplicação de políticas de microcrédito é considerada um caso de sucesso pela sua eficácia em diversificar e democratizar as opções de serviços financeiros para todos. Com ele, qualquer um pode ser um empreendedor. Contudo, pessoas em situação de extrema pobreza e vulnerabilidade social se tornaram o maior foco do microcrédito, criando assim um maior acesso ao capital para todos em situações emergenciais, ou não.

Nesse contexto, em 1976, Mohammed Yunus fundou o Banco Grameen em Bangladesh. Com o objetivo de desenvolver o programa de microcrédito e promover pequenos empréstimos para os desfavorecidos e, muitas vezes excluídos do sistema financeiro, o banco focou em combater a pobreza extrema e, por conta de seu sucesso, garantiu o Nobel da Paz para o economista em 2006.

O microcrédito, no entanto, também é alvo de algumas críticas. Um famoso artigo da Harvard Business Review de 1999 defende, por exemplo, que a aplicação de políticas de microcrédito não poderia funcionar nos Estados Unidos, e levanta o ponto de que a aplicação de políticas de microcrédito não necessariamente influenciam o bem estar material dos auxiliados. Outro estudo realizado pela The Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab, um centro de pesquisa cujo objetivo é reduzir a pobreza baseado em evidência científica, mostrou que o microcrédito ajudou os auxiliados a tomarem melhores decisões financeiras. Todo o tipo de política econômica carrega em si alguma crítica e precisa ser constantemente adaptada.

Um relatório de 2019 divulgado pelo próprio Banco Grameen com mulheres em situações vulneráveis em New Jersey mostrou que, após seis meses, o programa "Grameen America" gerou melhorias em diversos aspectos na vida das participantes do estudo. Bons exemplos de resultado do relatório são: tiveram melhoria na condição financeira geral e no fluxo de capital das envolvidas no estudo.

As microfinanças se tornaram um trend global e começaram a ser aplicadas em outros países como estratégia para reduzir a pobreza extrema através de empréstimos e gerar maior independência financeira. No Brasil, a política de microfinanças pode ser uma boa ponte para ajudar famílias que se encontram em vulnerabilidade social e que se veem dependentes de pequenos negócios.

Não é segredo que segmentos mais vulneráveis da população são os mais negativamente impactados em momentos difíceis, como o da COVID-19. Por isto, a criação de políticas como de microcrédito podem ser fundamentais para que a economia não sofra e para que famílias possam, ainda assim, gerar renda.


No caso de Bangladesh, pequenos empréstimos levaram a grandes impactos. Impactos que superaram barreiras e que inspiraram políticas de microcrédito pelo mundo. Yunus não foi capaz de prever a crise causada pelo coronavírus, mas foi responsável por repassar seu modelo econômico, que já foi, e pode continuar sendo responsável por tirar milhões de vidas da pobreza, no Brasil e no mundo.

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